terça-feira, 17 de junho de 2008

LORD JIM
(Uma modesta homenagem a todas aquelas que sempre serão namoradas, não importa o tempo nem o lugar )

Havia um hospital Matarazzo na região da Av Paulista e foi lá que ela deu seu primeiro sopro de vida neste planeta. Até os 9 anos seu róseo e suave mundo concentrou-se na região sudoeste da cidade, mais precisamente num sobrado simples incrustado em pequena vila, na rua Groenlândia, antiga
Entre bonecas e fantasias seu mundo se ampliava. Primeiro trilhou seu Caminho Suave, do A da abelha até a velha e boa Zabumba tanto no trajeto como na cartilha, aprendendo suas primeiras letras no Caetano de Campos, na central Praça da Republica. Na vila, a frondosa jabuticabeira oferecia seus saborosos frutos e galhos onde ela se dependurava e se imaginava a rainha do mundo. Aulas de piano, o mi sol si re fá semanal, com D. Regina, professora exigente e atenciosa. De vez em quando um passeio ao centro da cidade, um chá no quinto andar da Casa Anglo Americana, o conhecido Mappin, onde sua mãe talvez sonhando com o Teatro Municipal em frente e sua filha encantando todos com seu suave e intenso piano, ou um matinê no Cine Paulista, na esquina da Augusta com Oscar Freire e daí uma esticada e um lanche no Frevinho. Uma das esquinas mais famosas da cidade, não a cantada pelo poeta, mas a da Rua da Consolação com a Av Paulista, em frente ao cine Trianon, onde hoje é Belas Artes abrigava o ganha pão da família com o Posto Esso de primeira linha que seu pai possuía e que diariamente se fazia presente, administrando os negócios e lutando pelo bem estar da família . Um dia, um moleque de cabelos rebeldes e sardas chegou na sua vida e nela para sempre se incorporou. Brincadeiras de pegador na vila e na rua Taufic, algumas rusgas, um peteleco aqui, uma briga com a Helinha, com a Nair, com a Arlete, com a Nancy, um dia de ficar de mal ali, mas sempre os final das contas os dois juntos. No final da década de 50 porém, um trator passou pela sua vida. Alargou-se a Rua da Consolação que passou a ser Avenida, perdeu-se o posto, o ganha pão se fora, a família desmoronara, a mãe querida desaparecera. Necessidade de buscar novos rumos. Não há mais chás no Mappin, nem audições no Teatro Municipal, o que era sonho de crescimento ficou ponto de sobrevivência. E eu, misero e modesto coadjuvante, apenas observando a historia. Mudanças radicais. Nesse meio tempo o Hospital das Clinicas fez parte dessa vida. Nele uma doença difícil acompanhou sua mudança de menina, a moça, a mulher. Equipes médicas capitaneadas pelo Dr. Marcelo se desdobram, pesquisam, operam, um enxerto aqui, um colete de gesso e o milagre se fez e eu a vejo, moleca, andando de patins com o colete de gesso, ansiando a nova vida, sempre o mesmo sorriso, como se o infortúnio não fosse com ela. Sua residência agora á a Rua João Serrano, sem luz na rua, no Bairro do Limão, no fim da Celestino Bourruol e no comecinho da Dep Emilio Carlos. Não há mais o Caetano de Campos, agora é no Instituto Padre Moye onde ela se junta à Cleide e à Izilda e depois completa os estudos no Colégio Manoel de Nóbrega, na Casa Verde, que era conhecido como Matão. Saira da região Sudoeste para viver algum tempo na Região Noroeste da cidade. E eu, misero e modesto coadjuvante, apenas sofrendo à distância. Mas dentro das certas linhas que Deus escreve, um dia se deu o retorno. O sobrado da Rua Groenlândia tornou-se novamente iluminado e voltamos a nos ver. O primeiro e inocente passeio,( meio escondido ) ida e volta de trolebus, foi ao Cine Maracha, um cinema da Rua Augusta, hoje ocupado por uma faculdade onde assistimos Peter O´Toole no papel de Lord Jim, filme que por ter sido o primeiro é um marco de nossa união. Cessou, tudo o que a antiga musa cantou, e nosso sonho mais uma vez se faz presente. Duas crianças brincando de querer bem na ingenuidade dos anos 60, alimentando sonhos novamente nas floridas e arborizadas ruas do Jardim América, do Jardim Europa. Até que naquela tarde noite, naquela antevéspera de natal, na Igreja São José do Jardim Europa ela pronunciou o mais sublime, suave, sincero e esperado sim que eu ouvi na vida e fomos ambos, para nosso modesto sobrado na Vila Olímpia, na Al Raja Gabaglia. E eu, um misero e modesto coadjuvante passei a ter as ruas de São Paulo, vistas e percorridas pelos olhos de minha namorada, sendo inteiramente minhas, completamente minhas também. No final de tudo, resta apenas, uma pergunta : Será que eu mereço tanto ?

3 comentários:

Miguel disse...

Zé, conhecendo tua "namorada" como eu conheço, concordoque ela é tudo o que foi cantado e contado neste texto.
Porém, se é de fato verdade, mais verdade ainda é ter o milçagre de copm simples toques em teclas frias e inertes, fazer este poema em forma de oração.
É meu amigo, que sabe escrever como você não deveria ser matemático.

ana poeta. disse...

Linda narrativa, muito, muito bom deleitar-se c suas letras, encantador e envolvente são essas as palavras q tenhu p descrever c me senti, Parabéns.

Beijos Poéticos.
;**

Crys disse...

Olha só, depois de toda essa narrativa de amor, tão lindamente escrita, tanto que, fiquei a imaginar cada cena e me deliciando com tudo, e com uma ponta de invejinha da boa... com tanto amor em cada letra, paixão em cada linha, se depois disso tudo, alguém disser que vc não merece, eu me recusaria a entender o amor.

Agora, cá entre nós, vc sabia que temos um amigo em comum, que não pára de falar em vc, e no qto te admira... Um abraço, querido! Prazer ler vc, de novo!