terça-feira, 13 de maio de 2008

PROCURANDO EMPREGO NOVO

Troco um sistema Excel por Word oficial. Se há um desequilíbrio na troca, junto três ternos muito utilizados, sendo dois feitos por alfaiates e um comprado nas lojas Garbo. Incluo todas as minhas gravatas, sendo uma italiana e outra que ganhei de presente da Inglaterra. Não quero mais saber de performances. Quero ampliar meus horizontes, deixo de lado 10 caracteres numéricos e assumo as 26 letras, inclusive as três importadas. Aproveito agora que o dólar está baixo. Quem quiser este pacote leva ainda minha HP 12-c meio baleada com a tecla “9” não registrando bem e a capa toda desbotada, mas ela ainda funciona, a HP e não a capa e tem proteção original, a capa, não a HP. Não quero mais sonhar com lucros financeiros, mas sim lucrar com sonhos generosos Se preciso vou mexer na terra e se criar bolhas nas mãos a Silvia Regina vai curar delas com o amor de sempre. Não quero mais saber da Bolsa de Valores nem dos poucos valores que quase nunca tenho no meu bolso; não quero mais pensar em taxas internas de retorno e sim retornar sem taxas e encargos ao meu interior. Quero ouvir um sambinha, no sentido carinhoso e não no pejorativo, ou então encher minha tarde de jazz, blues ou qualquer big band americana. Não importa se ouvir a Enia também, eu quero é esquecer de números e me afundar nas letras. Não quero mais calcular correções da poupança, nem saber de Planos Econômicos, aliás não quero saber de plano algum Troco uma assinatura do Valor Econômico, por uma coleção de livros antigos, só não pode ser do Harry Potler nem da Angélica. Dou de troco ainda toda a publicação estatística da Conjuntura Econômica, troco todos os suplementos de Economia do Estadão pelos suplementos do Caderno 2, desde que tenham Palavras cruzadas ainda para fazer. Vendo ou entrego pra sucata, se ninguém quiser comprar, todos os recibos pagos dos Conselhos Regionais que ( não ) usei durante esses trinta anos de ( dês ) atividades profissionais . Minhas trinta e tantas declarações anuais do Imposto de Renda podem ir para qualquer biblioteca que queira mostrar como trabalhar para os outros, ou dar para qualquer escola para crianças rabiscarem no verso, ou na frente, tanto faz como tanto fez. Estão todas processadas e liberadas, não obstante não estejam ainda todas pagas. Mas um bom advogado e a alegação que o possuidor é uma criança talvez se tenha um abatimento. Abatimento para a criança, pois para mim não tenho mais onde me abater. Vou montar um álbum com meus diplomas e currícula escolares . As fotos com amigos, aquelas de toda classe e o professor mais badalado. Vou instituir quem será figurinha carimbada, assinada ou as apenasmente simples ( o advérbio errado é proposital ). Com minhas agendas vou fazer uma grande fogueira, mas vou esperar uma data especial pois afinal é toda uma vida (dês) importante que está ali registrada e não seria justo nem honesto que uma fogueirinha qualquer num dia qualquer fosse o derradeiro leito da esfuziante e prospera vida profissional que ora se extingue. Quero deixar de ser financeiro para ser um escrevinhador Vou escrever pela manhã quando tiver fome ou logo depois do café da manha. Quero ver o besouro lutar para se desvirar, vou transferir o formigueiro para um lugar mais longe e onde eu não esqueça o pé em cima dele. Vou observar o passarinho fazer seu ninho e prepará-lo para a prole que logo chega; vou varrer todas as folhas do plátano e nem me preocupar em demarcar espaços, quantas recolhi ou quantas vassouradas dei. Quero conviver com o cobreado das suas folhas e não com o numero delas. Chega de números. Quero tomar um café bem quente na hora do café e só parar de conversar quando perceber que já e hora do almoço; quero dormir de tarde e acordar com o cheiro de bolo impregnado na casa, quero ouvir o ultimo causo do seu Dario, o faz tudo ( e o sabe tudo ) nas redondezas. Vou olhar um pouco mais para a Silvia Regina, cutucá-la quando estiver fervendo o leite e vê-la ficar amorosamente braba quando perceber que o leite se foi. Quero ter dificuldade para por o sapato e me enroscar com o nó da gravata quando tiver alguma solenidade na igreja e eu tiver que pedir uma emprestada( a gravata e não a igreja, é bom que fique bem claro). Quero chorar de emoção quando o neto pronunciar a primeira palavra e chorar sem emoção quando a pimenta que provar for mais forte que o produtor falou. Quero atender ao telefone e ouvir que foi engano; quero receber um convite do vizinho para ir pescar. E vou aceitar. Sei que vai ser um saco ir pescar, mas só pelo convite eu vou. E nem quero saber quantos peixes eu vou trazer, se é que vou pescar algum. Quero comprar um rádio mais potente só pra deixar de ouvir os evangélicos, um rádio que pegue apenas AM e FM, e importante, sem relógio e sem alarmes. Vou brigar com as abelhas que teimam em acabar com as frutas e vou empilhar sacos e sacos de frutas ( as que sobrarem das abelhas) para encher a geladeira dos meus filhos. Vou ter que ir, de vez em quando, para o Pronto Socorro sempre que eu me descuidar um pouco e as abelhas cheguem mais perto, muito mais perto. E finalmente, vou esperar o fim do meu dia chegar vendo os pássaros voando em formação por cima da minha casa; ver a cachorra correndo que nem louca atrás dos pássaros que passeiam pelo gramado e reclamar da vida quando esquecer de desligar a bomba do poço e a água estiver escoando pelo ladrão. Vou ajudar ativamente a fazer pão, gnocci ou molho de tomate. Nem que eu seja apenas o mestre trigueiro, que joga o trigo em cima da massa; aquele que abre as latas ou que arruma tudo o que não servir pro lixo. Ou aquele que varre a cozinha. Quero comprar uma guitarra, aprender a tocar e sair por ai, tocando blues. Pretendo ficar muito tempo nesse novo emprego, mas quando eu me for, que seja pela manhã e que dê pouco trabalho, que os amigos sejam chamados, se reúnam, se revejam, (mas que não fiquem fazendo piadinhas em cima de mim,) e que misturado com o murmúrio dos amigos se ouça Glenn Miller tocando Moonlight Serenade , bem baixinho Vou fazer tudo isso e um pouco mais, desde que não tenha mais números para enfileirar e ordenar. Troco meus três ternos e todas as gravatas e, ...puxa quase me esquecia. troco um sistema Excel por Word oficial.

4 comentários:

Miguel disse...

Seja Bem vindo amigo escrevedor. Parabéns pelo texto (isso já virou redundância!!!).

Dora disse...

Que beleza de emprego novo você arranjou! Amei cada "troca" do antigo pelo novo. E mais que tudo, jogar fora os ternos e gravatas...
É um ideal de vida invejável. E este post deveria servir de "currículo" para algumas pessoas sofredoras que conheço!
Saúdo você! Seja bem vindo entre nós, escrevedores de arco-íris, borboletas e passarinhos...
Um abraço enorme!!
Dora

ana poeta. disse...

Munhoz.

Seja bem vindo, vida longa na blogosfera!

Beijos Poéticos.
;**

Crys disse...

Entre todas as suas escolhas, eu ainda sugiro, uma rede na varanda, a boa companhia, que vc já tem, mais blues, ou jazz. Pronto, perfeito! Fiquei até com invejinha. Ô coisa boa!

Querido, Munhoz, cheguei até aqui pelas mãos carinhosas do Miguelito. Seja bem vindo ao nosso mundo (meio maluco, mas gostoso) de blogueiros. Um beijo!